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terça-feira, 7 de junho de 2011

E-ventre 2011 - Olhar dos bastidores

Neste domingo aconteceu o E-ventre – evento do qual já participo há 3 anos. Assim como no ano passado, eu trabalhei na mesa de notas dos concursos, e é bem punk, porque é bastante responsabilidade tomar conta dos resultados (haja matemática!!). Mas, o lado é bom é que tenho contato direto com os jurados, e neste ano a banca de jurados estava muito forte: Adriana Belefusco, Esmeralda, Hadara Nur, Amara Saadeh, Tahya Brasileye, Fátima Braga e Lulu Sabongi. Não foram todas em todas as categorias, houve trocas durante o evento para não ficar cansativo para elas, mas qualquer uma dessas composições da banca estavam fantásticas. Embora tudo tenha sido muito rápido, e óbvio que não é o local para tietar, afinal eu estava trabalhando, claro que foi uma honra estar tão perto de profissionais tão renomadas. E eu tive que falar individualmente com cada uma para pegar um resumo do currículo para que fossem anunciados no momento do concurso. O que achei mais divertido foi que todas perguntavam pra mim “O que eu falo?”, “O que você acha que eu devo colocar?”, “Nossa, não sei o que falar...”, e como eu já as conhecia, ficava sugerindo “Fala onde você já dançou, quanto tempo de experiência você tem...”, rsrs, foi muito divertido. Não houve nenhum tipo de estrelismo, de nenhuma delas. Minhas impressões pessoais sobre cada uma foram muito positivas, e inclusive fui obrigada a mudar minha opinião sobre a Hadara Nur. Sinceramente falando, eu não ia muito com a cara dela, achava ela um pouco esnobe, e estava até meio apreensiva de chegar até ela para pedir seu currículo. Mas o que vi foi uma pessoa bacana, sorridente, e uma menina brincalhona, e um detalhe que até me emocionou: ela estava roendo as unhas antes do resultado, porque uma de suas pupilas competiu na categoria profissional (e levou o troféu, diga-se de passagem). Agora enxergo a Hadara com outros olhos...

A organização do evento sempre foi e continua impecável – as meninas ralam muito no evento pra que nada saia errado nem fora do horário. Aliás, esse é um dos pontos mais fortes do E-ventre: pontualidade! Eu só acho que esse ano os grupos em geral estavam um pouco despreocupados com os horários – tinha grupo que não estava pronto faltando 2 apresentações!!! E toca ficar a equipe de apoio correndo atrás dos componentes pelo lugar (por favor, né?!).

Também encontrei por lá as queridas Verinha, Natália, Zahira Nader, da blogosfera. Muito fofas como sempre!! Meninas, adorei encontrá-las novamente! Aliás, a Zahira competiu na categoria profissional e dançou Enta Omri. Eu chorei... Ela tá dançando muito, e imagina você dançar a música das músicas para a mestra das mestras Lulu Sabongi... parabéns Zahira, você está evoluindo a olhos vistos. E também chorei com a apresentação final da Lulu Sabongi – fiquei pensando em todas as mulheres que já aprenderam e ainda aprendem com ela, e no E-ventre pude vê-la no papel de mãe também – ela levou a pequena Eva junto. A pequenina quando a viu dançando no palco, saiu correndo para tentar subir; o Michael (o pai dela) correu para segurá-la, e ela caiu no choro porque queria ir com a mãe (que linda!). A Lulu viu isso do palco e expressou dó de mãe, mas continuou a flutuar como bailarina. Sempre que eu a vejo dançar penso em todos os papéis dessa mulher, e em como toda sua vida está presente no momento de suas apresentações. O olhar da Lulu transparece tudo que ela é, e por isso sua dança é muito verdadeira. Lulu é absoluta!

Ah, e eu não trabalhei apenas não, também dancei na mostra! Dancei com o grupo do Shangrila da Rhazi e da Tahya. Um grupo enooorme, tivemos que nos dividir em duas partes – um grupo dançou no palco e outro no chão, em frente – e foi muito bom. Esse grupo tem uma energia bem boa, e algumas meninas nunca tinham dançado em evento antes. Mandaram muuuuito bem, a Rhazi e a Tahya nos deram bastante força e encorajamento, e nos divertimos a valer! Ainda vamos nos apresentar em outros eventos, mas o primeiro é sempre especial! Adorei! (depois eu coloco uma fotinho, estou aguardando a autorização de todas as meninas do grupo)

Foi um domingo cansativo, corrido e ótimo! Um evento impecável, sem dúvida nenhuma. Parabéns a todas, mas principalmente à Débora e à Rhazi, profissionalíssimas!

Ainda vou escrever mais porque tem muita coisa pra falar em um só post.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Falando um pouco de Lulu


Há tempos que queria escrever este post, mas já não gosto de escrever correndo, e um post sobre quem quero falar então, tem que sentar e pensar pra fazer direito.

A bailarina deste post é “uma tal” de Lulu Sabongi, conhecem? Não vou ficar falando quem ela é porque acredito que ela dispensa apresentações...

Mas o que realmente me impressionou e sobre o qual vou ser mais específica aqui é sua última dança no Khan. Na época deu muito o que falar, muitas pessoas apoiaram a atitude da Lulu, outras nem tanto, e a minha opinião é que tudo foi uma grande sacanagem com ela, que ajudou a construir aquele lugar. Mas, passou-se um ano, Lulu vai muito bem obrigada no Shangrila, tem uma filhinha que é uma gatinha, e continua sua evolução como bailarina. Minha intenção não é tentar retomar essa discussão.

Eu sou uma criatura ultra nerd, e como tal A-DO-RO um belo estudo técnico, e esse vídeo da Lulu de10 minutos pode ser considerado um bom resumo de seus 28 anos de experiência, e toda essa bagagem de movimentos e influências. É tanta coisa que só pra escrever esse post, já assisti o vídeo umas 10 vezes, pausando, voltando, e tentando entender determinados passos. Eu também gosto de imaginar o suspiro que ela deu antes de entrar em cena. Imagina o peso, as lembranças e a entrega naquele segundo que precede a entrada: “vou fazer minha última apresentação nesse lugar que amo!”, e começa algo que seria eterno.

Emoção de lado (se é que isso é possível) aprendi e ainda estou aprendendo muito sobre essa única dança única (repetição proposital) da Lulu.



1 – A entrada com o véu
Nesse vídeo a Lulu fica praticamente 2 minutos com o véu, mas seus movimentos mostram o quão belo pode ser o simples. Ela não faz movimentos bruscos nem os varia demais (uma tendência atual). Ela usa o véu como seus braços, emoldurando seus movimentos. Depois ela passa o véu para uma das mãos, e penso “ok, hora de jogar o véu” – não, não, engano meu!! Continua a dançar com o véu, que volta para as duas mãos, tranquilo, bem natural. Meu momento favorito é a partir de 1:34, quando ela está girando e vai subindo o véu aos poucos. A cabeça levemente tombada, o olhar acompanhando o giro... poesia!

2 – Tremidos
Desde que eu comecei a dançar os tremidos da Lulu sempre foram um mistério pra mim. Lembro que fiz um workshop dela na FIEL de 2007, e tava lotaaaaado. Eu fui de mansinho até a beira do palco e ficava só olhando pra tentar entender o que ela fazia com os pés e com joelhos, mas parecia tudo imóvel!!! Nossa, que nervoso! Claro que eu sei que é impossível fazer tremido sem movimentos de joelho, mas até hoje ainda fico surpresa como seus movimentos de joelhos são pequenos pra produzir um tremido tão forte e estável. Muitas bailarinas recomendam que não se mostre as pernas quando for fazer tremido, pra que as pessoas não vejam os joelhos se movimentando, mas a Lulu mostra que é possível mostrar sim, desde que os joelhões não façam movimentos enormes. Continuo tentando!

3 – Cambré
O cambré dela é muito bonito, mas a forma como ela entra no cambré, sem aquela comum pausa de costas (“hora de fazer cambré, público, prestem atenção em como sou flexível!”), mas sim vindo de um meio redondo lento, e numa queda bem devagar, muito, muito, muito difícil. Haja abdômen! E ela ainda fecha os olhos e aproveita aquele momento, como se fosse uma reza mesmo. Na volta, as mãos juntas no alto, o silêncio. 10 segundos em que o público prende a respiração e ninguém consegue desviar os olhos (preste atenção nas pessoas em volta).

4 – Giros
TODOS os seus giros são diferentes. É como se ela tivesse pego seus caderninhos de giros e decidido: vou fazer TODOS!!! Tem giro tremendo, meio giro lento, meio giro inclinando o tronco, giro brejeiro “a la Dina”, giro que eu apelidei de “giro Lulu”, que acho característico dela (com um dos braços para cima, como se estivesse puxando o corpo, em 07:02), giro com aceleração, giro com cabelo...preste atenção.

5 – Chão
Sou suspeitíssima pra falar da parte de chão, porque A-MO dança de chão. Mas está cada vez mais difícil ver grandes bailarinas fazendo, e parece que existe um pacote fixo de passos no chão, vai acontecer isso, isso e isso. Lulu fez chão (aeeehh!!!) e foi mais um daqueles momentos de prender a respiração e de cochichar um “noooossa”, “meeeeuu”, porque foi lindo. E é muito difícil fazer o que ela faz, porque ela faz tudo muito lento, e os movimentos lentos são os que mais exigem da musculatura das pernas e do abdômen. Quando ela está de joelhos no chão e desce com o tronco e cabeça, já é difícil, agora voltar sem a ajuda dos braços, minha amiga, dói, aaah dói! E depois disso ainda tem mais 4 minutos de dança...até parece fácil.

6 – Gestos
Às vezes um olhar, um movimento sutil de braço e mão, é o que marca um momento. E embora esse vídeo da Lulu tenha muitos momentos sutis como esse, o que eu pessoalmente mais gostei e me emocionei demais é a sequência que ela faz depois de subir da parte do chão, de 06:26 até 06:47, quando ela encerra com “mente, coração, meu público”. Nossa, até escrevendo isso me dá vontade de chorar, porque nesse momento só ela sabia o tamanho do significado disso; depois de sabermos que era sua última apresentação lá é que entendemos a força desses “pequenos” gestos.

7 – Homenagens
Ok, falei que ia deixar a emoção de lado, mas não consegui. Qual é a melhor homenagem que uma bailarina pode fazer para alguém? Oferecer sua dança. E é tão bonito quando ela chama o Gabriel, a Nagla e a Simone. Honra muito grande, “estou aqui pela última vez e vou dançar pra vcs, que significam muito pra mim”. Mas uma sequência aparentemente simples, que já vimos acontecer com outras bailarinas, mas que ganham outro significado depois que vemos o desfecho da história.

8 – Momento “Onde está o Wally?”
Vcs repararam que em um determinado momento a Lulu coloca uma faixa de tecido de sua saia sobre o top de propósito? Eu tive que assistir de novo pra descobrir como isso aconteceu. E depois como ela tira esse tecido? Não foi acidente, não foi sem querer. Um toque, uma graça!

Bom, esses são alguns dos momentos que mais me chamaram atenção e que considero um ótimo material de estudo. Mas é óbvio que é impossível separar o lado técnico da emoção desse momento pelo qual ela estava passando. Eu falei que tentaria, mas já sabia que não ia conseguir.

A Jade uma vez disse que a mulher é na dança o que é na vida, e esse vídeo da Lulu ilustra bem isso, o que uma bailarina de verdade consegue fazer diante de um momento triste, que em vez de chorar é muito melhor usa-lo como fonte de inspiração, e a inspiração fica de lição para as outras bailarinas e para o público.

Nunca é demais falar de um ídolo.

bjo!