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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Falando um pouco de Lulu


Há tempos que queria escrever este post, mas já não gosto de escrever correndo, e um post sobre quem quero falar então, tem que sentar e pensar pra fazer direito.

A bailarina deste post é “uma tal” de Lulu Sabongi, conhecem? Não vou ficar falando quem ela é porque acredito que ela dispensa apresentações...

Mas o que realmente me impressionou e sobre o qual vou ser mais específica aqui é sua última dança no Khan. Na época deu muito o que falar, muitas pessoas apoiaram a atitude da Lulu, outras nem tanto, e a minha opinião é que tudo foi uma grande sacanagem com ela, que ajudou a construir aquele lugar. Mas, passou-se um ano, Lulu vai muito bem obrigada no Shangrila, tem uma filhinha que é uma gatinha, e continua sua evolução como bailarina. Minha intenção não é tentar retomar essa discussão.

Eu sou uma criatura ultra nerd, e como tal A-DO-RO um belo estudo técnico, e esse vídeo da Lulu de10 minutos pode ser considerado um bom resumo de seus 28 anos de experiência, e toda essa bagagem de movimentos e influências. É tanta coisa que só pra escrever esse post, já assisti o vídeo umas 10 vezes, pausando, voltando, e tentando entender determinados passos. Eu também gosto de imaginar o suspiro que ela deu antes de entrar em cena. Imagina o peso, as lembranças e a entrega naquele segundo que precede a entrada: “vou fazer minha última apresentação nesse lugar que amo!”, e começa algo que seria eterno.

Emoção de lado (se é que isso é possível) aprendi e ainda estou aprendendo muito sobre essa única dança única (repetição proposital) da Lulu.



1 – A entrada com o véu
Nesse vídeo a Lulu fica praticamente 2 minutos com o véu, mas seus movimentos mostram o quão belo pode ser o simples. Ela não faz movimentos bruscos nem os varia demais (uma tendência atual). Ela usa o véu como seus braços, emoldurando seus movimentos. Depois ela passa o véu para uma das mãos, e penso “ok, hora de jogar o véu” – não, não, engano meu!! Continua a dançar com o véu, que volta para as duas mãos, tranquilo, bem natural. Meu momento favorito é a partir de 1:34, quando ela está girando e vai subindo o véu aos poucos. A cabeça levemente tombada, o olhar acompanhando o giro... poesia!

2 – Tremidos
Desde que eu comecei a dançar os tremidos da Lulu sempre foram um mistério pra mim. Lembro que fiz um workshop dela na FIEL de 2007, e tava lotaaaaado. Eu fui de mansinho até a beira do palco e ficava só olhando pra tentar entender o que ela fazia com os pés e com joelhos, mas parecia tudo imóvel!!! Nossa, que nervoso! Claro que eu sei que é impossível fazer tremido sem movimentos de joelho, mas até hoje ainda fico surpresa como seus movimentos de joelhos são pequenos pra produzir um tremido tão forte e estável. Muitas bailarinas recomendam que não se mostre as pernas quando for fazer tremido, pra que as pessoas não vejam os joelhos se movimentando, mas a Lulu mostra que é possível mostrar sim, desde que os joelhões não façam movimentos enormes. Continuo tentando!

3 – Cambré
O cambré dela é muito bonito, mas a forma como ela entra no cambré, sem aquela comum pausa de costas (“hora de fazer cambré, público, prestem atenção em como sou flexível!”), mas sim vindo de um meio redondo lento, e numa queda bem devagar, muito, muito, muito difícil. Haja abdômen! E ela ainda fecha os olhos e aproveita aquele momento, como se fosse uma reza mesmo. Na volta, as mãos juntas no alto, o silêncio. 10 segundos em que o público prende a respiração e ninguém consegue desviar os olhos (preste atenção nas pessoas em volta).

4 – Giros
TODOS os seus giros são diferentes. É como se ela tivesse pego seus caderninhos de giros e decidido: vou fazer TODOS!!! Tem giro tremendo, meio giro lento, meio giro inclinando o tronco, giro brejeiro “a la Dina”, giro que eu apelidei de “giro Lulu”, que acho característico dela (com um dos braços para cima, como se estivesse puxando o corpo, em 07:02), giro com aceleração, giro com cabelo...preste atenção.

5 – Chão
Sou suspeitíssima pra falar da parte de chão, porque A-MO dança de chão. Mas está cada vez mais difícil ver grandes bailarinas fazendo, e parece que existe um pacote fixo de passos no chão, vai acontecer isso, isso e isso. Lulu fez chão (aeeehh!!!) e foi mais um daqueles momentos de prender a respiração e de cochichar um “noooossa”, “meeeeuu”, porque foi lindo. E é muito difícil fazer o que ela faz, porque ela faz tudo muito lento, e os movimentos lentos são os que mais exigem da musculatura das pernas e do abdômen. Quando ela está de joelhos no chão e desce com o tronco e cabeça, já é difícil, agora voltar sem a ajuda dos braços, minha amiga, dói, aaah dói! E depois disso ainda tem mais 4 minutos de dança...até parece fácil.

6 – Gestos
Às vezes um olhar, um movimento sutil de braço e mão, é o que marca um momento. E embora esse vídeo da Lulu tenha muitos momentos sutis como esse, o que eu pessoalmente mais gostei e me emocionei demais é a sequência que ela faz depois de subir da parte do chão, de 06:26 até 06:47, quando ela encerra com “mente, coração, meu público”. Nossa, até escrevendo isso me dá vontade de chorar, porque nesse momento só ela sabia o tamanho do significado disso; depois de sabermos que era sua última apresentação lá é que entendemos a força desses “pequenos” gestos.

7 – Homenagens
Ok, falei que ia deixar a emoção de lado, mas não consegui. Qual é a melhor homenagem que uma bailarina pode fazer para alguém? Oferecer sua dança. E é tão bonito quando ela chama o Gabriel, a Nagla e a Simone. Honra muito grande, “estou aqui pela última vez e vou dançar pra vcs, que significam muito pra mim”. Mas uma sequência aparentemente simples, que já vimos acontecer com outras bailarinas, mas que ganham outro significado depois que vemos o desfecho da história.

8 – Momento “Onde está o Wally?”
Vcs repararam que em um determinado momento a Lulu coloca uma faixa de tecido de sua saia sobre o top de propósito? Eu tive que assistir de novo pra descobrir como isso aconteceu. E depois como ela tira esse tecido? Não foi acidente, não foi sem querer. Um toque, uma graça!

Bom, esses são alguns dos momentos que mais me chamaram atenção e que considero um ótimo material de estudo. Mas é óbvio que é impossível separar o lado técnico da emoção desse momento pelo qual ela estava passando. Eu falei que tentaria, mas já sabia que não ia conseguir.

A Jade uma vez disse que a mulher é na dança o que é na vida, e esse vídeo da Lulu ilustra bem isso, o que uma bailarina de verdade consegue fazer diante de um momento triste, que em vez de chorar é muito melhor usa-lo como fonte de inspiração, e a inspiração fica de lição para as outras bailarinas e para o público.

Nunca é demais falar de um ídolo.

bjo!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Voltando e falando do vídeo

Voltando...

Descobri, a moça do vídeo no post anterior é ucraniana, não suíça nem norueguesa.

Cheguei neste vídeo sem querer, mas já vi vários outros dela no youtube, inclusive de um campeonato chamado LBC World Bellydance Championship, onde ela chegou à final.

Quando eu procurei por vídeos de bailarinas de outros países queria ver principalmente as diferenças, claro, mas não encontrei coisas tão diferentes não. Estava atrás de “marcas culturais” por exemplo, mas pelo menos por enquanto não encontrei nada que surpreendesse nesse aspecto. Como a Ket falou, “nada de novo”. Hunf, fazer o quê? Estudemos o “velho” então, afinal sempre se aprende alguma coisa, rsrs...

Assisti várias vezes o vídeo e fui anotando as coisas que gostei mais e menos.

A roupa dela tem um modelo bonito, como a Natasha comentou, e eu até gostei dos tons, só que a ideia da borboleta pode ter sido boa na teoria, mas não funcionou bem na prática. Muito grande! Mas os cabelos e a maquiagem estão bonitos – e ela já é uma mulher bonita, então até fica fácil, rsrs.

Ela começa a dança saindo desse “objeto não identificado” (se alguém souber o que é isso, por favor ajudem) e como a Ket falou, é meio “a la Saida”. Desconsiderando esse comecinho, que eu pessoalmente não gostei, achei interessante a maneira como ela se apresenta para o público. Em vez de grandes deslocamentos na entrada, ela dá alguns giros e fica de costas para o público. Depois faz algumas ondulações, enfim, não vou descrever porque dá pra ver isso tudo no vídeo, mas gostei dessa alternativa para o “deslocamento quase que obrigatório” no início das músicas clássicas. E a leitura dela também está bem limpa nesse momento: ondulações, pequenos deslocamentos, giros bem colocados. A única coisa que senti falta foi de um crescendo para terminar essa primeira parte. Ah, quando o vídeo começou, pensei “ondulações de braços muito bem feitas”, mas depois os braços - e mãos - continuaram ondulando e começou a parecer automático. Embora algumas das posições de braços tenham ficado interessantes, tem muita informação.

Agora na segunda parte, do Shik Shak Shok. A mulher tem uma p... dissociação!!! Principalmente no peito. Movimentos bem isolados, bastante domínio do corpo.
Ela tem uma mania de ”palminha” que às vezes agonia! Acho até bonito uma vez ou outra, especialmente quando cai junto com alguma batida da música, mas pelo menos no começo dessa parte tem demais.

Embora eu tenha gostado da alternativa aos deslocamentos que ela fez no início da primeira parte, acho que na parte dos 03:21 ela devia ter deslocado. Pelo menos eu senti que precisava, nem que fosse só um pouquinho!!! Tudo bem que a música vira uma pauleira a partir daí e existe o risco de ficar lotada de tremidos e deslocamentos malucos (ok, rolou uma identificação pessoal aqui); aliás, nos 03:45 não consegui acompanhar a leitura dela. Acho que ela quis seguir tanta coisa que ficou muito misturado. Depois ela faz algumas coisas mais calmas e contidas, e acho que foi uma boa pra segurar o gás pro final.

Eu sei que essa música é super conhecida e dançada por aí, mas eu nunca tinha prestado atenção nela inteira... é bem complicadinha, não? Tudo bem que não tem mudança de ritmo, e tals, e não é nenhuma das clássicas, mas o final é muito acelerado. Fiquei aqui tentando pensar em alternativas, mas tudo parece que fica cansativo, tanto pra quem dança quanto pra quem assiste. Pelo menos fiquei com essa impressão. Depois vou dar uma olhada no youtube e ver como outras bailarinas resolveram o problema.

Nem preciso dizer que músicas muito rápidas são o terror pra mim...

Quanto à Leila (a bailarina do vídeo), tenho visto outros vídeos dela e, embora não goste do estilo, acho que tem coisas que merecem atenção (como em qualquer bailarina profissional). Uma das conclusões que tirei da primeira parte deste vídeo dela, é que às vezes fica muito mais bonito fazer movimentos mais “simples”, como camêlos grandes e lentos, bem executados, do que encher de coisa e acabar deixando a dança incompreensível. E não é que eu nunca tenha ouvido isso de uma professora; já até ouvi várias vezes, mas quando a gente assiste outras bailarinas aplicando, isso fica bem mais claro do que fazendo. Aquilo que dizem de “menos é mais” funciona muito bem na dança do ventre.




sexta-feira, 3 de julho de 2009

A busca de todo o artista – equilibrar a técnica e a emoção

Artista do Cirque du Soleil

Grandes artistas – especialmente bailarinos – são aqueles cuja técnica é considerada perfeita. São aqueles que as pessoas observam e não entendem como algum movimento é feito, como alcançaram tal flexibilidade, força e, que, além de tudo isso, desperta algo em quem o assiste, sorrisos, lágrimas, até revolta, mas que faça algo ser "acordado". É a perfeita junção da técnica e da emoção.

Um bailarino pode ser fantástico na parte técnica, mas nunca será completo enquanto não conseguir sentir e demonstrar isso no palco, afinal o papel da arte é despertar algo em quem a observa – na minha opinião – e isso só pode partir do artista que sente algo no que está fazendo. Não há como dançar sem sentir algo pela dança.

Na dança passamos por muitas sensações, antes, durante e depois do momento da apresentação. Primeiro é a expectativa, a alegria de ver um trabalho ser preparado, as angústias que surgem no processo, o nervosismo pré-palco, as frustrações eventuais e a satisfação final. As coisas não acontecem necessariamente nesta ordem, nem nesta forma organizada como as palavras descrevem, porque sentimentos podem e muitas vezes são caóticos, e não há razão que os organize.

O que eu entendo como domínio de palco – em relação ao lado emocional – é aquela pessoa que sente uma certa ansiedade antes e até no início de uma apresentação, mas que aos poucos vai disso para uma verdadeira alegria de estar dançando e apresentando um bom trabalho, sem preocupações com técnica nem erros, mas só ouvindo a música, o público e deixando o pensamento de lado. É a hora de apresentar o fruto de todo o estudo e das horas de trabalho suado, sem pensar nelas.

O grande Paulo Autran

O domínio das próprias emoções pode ser tão ou até mais difícil do que a parte técnica. Isso porque todo o estudo pode ser sabotado se a ansiedade não estiver controlada (isso já aconteceu e continua a acontecer comigo em apresentações).

Estou aprendendo a lidar com tudo isso na dança, mas isso é só a pontinha do iceberg. Por enquanto acho que não estou nem perto de conseguir dominar a ansiedade e o nervosismo. Ainda consigo me divertir, mas ainda falta muito para relaxar. E nem todo o meu estudo tem me ajudado neste aspecto, afinal estudo é racional, e o que estou buscando é emocional. Mas, e aí? Além da experiência pessoal e a dos outros, como posso trabalhar isso? Eu sei que o momento no palco é único e impossível de se representar fora dele, sem um público, mas não acho que devo simplesmente esperar cada nova apresentação e 'torcer' para que as coisas se ajustem aos poucos. Já tentei, e aparentemente não é bem por aí que as coisas vão melhorar. Então, busco armas onde posso: no estudo, na pesquisa e em todo o trabalho pré-palco novamente. Espero não estar andando em círculos, mas isso só o tempo dirá.

Entre algumas coisas que tenho tentado, encontrei palavras úteis e interessantes em um livro que li há muitos anos, dos tempos em que estudava música erudita. É um livro pequeno, comprado direto da autora, mas que é excelente. O nome é "Tocando com Concentração e Emoção", e a autora chama-se Marcia Kazue Kodama. Ele inclusive foi
republicado no ano passado pela editora Som, segundo a própria autora, e agora pode ser comprado pelo site.

O livro é pequenino, mas riquíssimo em informações, e é impressionante como algumas partes aplicam-se perfeitamente para bailarinos também, tirando alguma terminologia específica da área de música. Lembrei desse livro sem querer, e seguindo a intuição fui remexer no armário, encontrei e reli. Com a devida autorização da autora, coloco alguns dos trechos que achei que melhor se aplicam a bailarinos também. E os que mais convém aos meus objetivos de agora...

"Todos os processos de aperfeiçoamento, tanto técnico como interpretativo, precisam de tempo, trabalho e dedicação para o seu desenvolvimento e amadurecimento. Se eles não forem dominados, as dificuldades causadas pela falta de domínio aparecerão em todas as peças tocadas".
Se a técnica requer tempo e estudo, talvez o domínio dos sentimentos que envolvem uma apresentação também precise do mesmo, e de muita paciência, porque cada um tem seu tempo de aprendizado, e ele pode ser mais longo do que gostaríamos.


"A emoção que o intérprete pode transmitir não é apenas a emoção pessoal, mas também a emoção originada pela própria música. Cada harmonia, cada sequência de notas, cada ritmo e cada combinação de sons e melodias, pode ser associado a uma emoção, e assim à própria música, independente do seu sentimento pessoal, pode provocar uma reação no músico e todo esse sentimento ser passado aos ouvintes".
E é tão bom quando há essa troca...é tão bom sentir-se tocado por um artista, e o contrário também deve ser fantástico.

"Acredito que uma das riquezas da música é ser uma arte de momento. A única maneira de repetir a mesma interpretação é através de uma gravação, pois nenhuma música poderá ser produzida exatamente da mema forma; cada interpretação é única".
É aquela velha história, uma bailarina pode dançar a mesma música 10 vezes, e elas serão todas diferentes, mas acredito que isso ocorra de verdade quando há sentimento, quando mesmo com uma coreografia ensaiada e apresentada muitas vezes, o artista deixe-se expressar.

Randa Kamel

"Por isso, não importa o quanto os outros tocam, nem que Mozart aos 8 anos compunha sinfonias. O importante é ver humildemente quais as suas condições reais, as suas dificuldades e capacidades, mesmo que estas sejam aquém do ideal. Não adianta tentar fazer coisas que não estão ao seu alcance, isto resultará em frustrações, aborrecimentos e perda de tempo.
Procure respeitar o seu limite e fazer o seu melhor dentro dele; se conseguir fazer o seu melhor, com certeza se surpreenderá com o resultado final".

Esse trecho é um tapa na cara pra mim; é muito importante para aqueles momentos de "eu não consigo", "tá muito difícil" ou os piores como "mas a fulana faz isso tão facilmente". Tsc, tsc, tsc, cada um a seu tempo, com as suas próprias características. Preciso me lembrar disso sempre!

Enfim, eu poderia citar muitos outro trechos porque o livro é realmente bom. Ela também fala sobre a neurofisiologia da execução musical, explica um pouco a diferença dos hemisférios direito e esquerdo do cérebro e quais mecanismos utilizamos para a concentração, memorização e no aprendizado musical como um todo. No livro também há algumas citações do livro "Inteligência Emocional" – que é o livro que estou lendo no momento – que é outro riquíssimo em informações sobre emoções, e que talvez vire um post futuramente.

Uma das coisas que a Marcia fala que eu gosto bastante é sobre os tipos diferentes de memórias, outro estudo fundamental para qualquer estudante e professor, seja de artes ou qualquer outro assunto; enfim, tem muita coisa, valeu a pena reler o livro. Preferi citar os trechos mais marcantes, pelo menos neste segundo momento em que li. São eles que têm me ajudado a refletir e a buscar o domínio que preciso para subir no palco e dançar mais relaxada, porque alegria existe, com certeza, o problema é aprender a dosar as coisas.

Só pra finalizar, uma apresentação antológica de uma cantora técnica e extremamente expressiva, uma tal de Elis Regina, já ouviram falar? :P



domingo, 1 de fevereiro de 2009

Com dor e um estranho sorriso




Em 2007, no primeiro grande festival de dança que eu participei, tivemos 3 dias de aulas seguidos e foram aulas bem puxadas. No segundo dia eu já acordei bem dolorida, então procurei pegar mais leve e não forçar o corpo. Aproveitei pra anotar bastante coisas. Mas eu vi um monte de meninas com aqueles emplastros na coluna e nos joelhos. Também vi várias tomando analgésicos e anti-inflamatórios. Fiquei chocada e pensei "Nossa, que doidas, como podem fazer isso?"...bom, quem cospe pra cima...


Nesta semana eu fiz um curso intensivo de ballet. Tive aulas todos os dias de 2 horas cada. Nem preciso dizer como ficou meu corpo, né? Na 4ª feira (terceiro dia) já estava acabada! Na quinta-feira estava um pouco melhor (na verdade cheguei a sentir tanta dor que acho que o corpo acabou acostumando, sei lá) e tive alongamento (e o alongamento do ballet é bem ao estilo câmara de tortura). Bom, pra aguentar a aula de sexta-feira não aguentei e tomei o bem-dito analgésico. Paguei minha lingua!! Aliás tomei um na quinta à noite e outro na sexta antes da aula. Acho que nunca tinha ficado tão dolorida.



Nesta semana tive que cancelar minhas 2 aulas de dança do ventre porque eu simplesmente não tinha condições. Só de imaginar um shimmie já doía. Hoje é domingo e ainda estou dolorida, mesmo tendo ficado o fim de semana "de molho".

Mas é engraçado porque eu senti um estranho prazer mesmo com toda essa dor. Eu gostei muito do ballet, mas não era só isso...não sei explicar, mas cada dia que eu acordei parecendo que tinha levado uma surra, eu sorria...estava feliz, talvez por estar começando do zero de novo, por superar alguns limites (especialmente quanto à flexibilidade), mas continuo achando tudo muito estranho, um tanto masoquista.

E também tenho uma outra frustração: nunca tive bolhas nos pés. E olha que já treinei horas a fio, sem sapatilha, com sapatilha, saltando, girando, e nada! Os pés ficam pretos e nojentos, mas nada de bolhas!


Será que Freud explica?



segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Arabesque


Arabesque de Emanuel Mattini

O nome arabesque vem do árabe – aa rah besk – e quer dizer 'ornamento'. É um termo bastante usado, não só para nomear o passo de dança, mas também um estilo de ornamento complexo com formatos geométricos compostos de traços curvos e um gênero musical. É o nome de companhias de dança, de cds e filmes.



Arabesque é um dos passos mais conhecidos em dança, muito visto no ballet, mas também na dança do ventre. E como é belo, talvez um dos passos mais belos de se ver. É aquele momento em que a bailarina além de mostrar todo o seu equilíbrio, flexibilidade (em alguns casos) e leveza, se eleva, parece que vai voar. É um momento em que o corpo está alongado, bonito, e ainda fica mais bonito com aquele olhar para o alto, que segue a direção da perna, dos braços e das mãos.

O arabesque é a posição em que o peso do corpo fica sobre uma das pernas e a outra fica esticada para trás. A perna na qual o peso do corpo está apoiado pode estar em meia-ponta ou inteiro no chão. Os braços ajudam a formar o desenho elegante do arabesque. O tronco tem que estar bem reto. No ballet, pelo que estive pesquisando, vi que existem vários tipos de arabesque dependendo da escola (italiana, russa etc). Na dança do ventre o movimento foi introduzido no século XX, como boa parte da técnica que conhecemos hoje, vindo do ballet.



Em uma música clássica de dança do ventre ele pode ser usado na entrada da bailarina, no meio da música e no encerramento. É um movimento que fica bonito em sequências, ou na finalização de giros, é bastante versátil. Sua técnica pode parecer simples, mas ele exige força e flexibilidade da bailarina, podendo sobrecarregar joelho e coluna se não for feito corretamente. Quando o arabesque for bem alongado, é muito importante que se tome cuidado com a finalização, para que não haja uma "queda" brusca da outra perna, sobrecarregando o joelho. Por isso é um movimento a ser bastante treinado e, para quem deseja fazê-lo como no balé ou "a la Saida", ou seja, bem alto e alongado, deve-se treinar muito para evitar lesões. Claro que para isso o trabalho da professora é essencial, e a aluna deve ter consciência de seus próprios limites e não sair por aí dançando tentando esticar ou elevar a perna acima do normal (eu já tive dores por causa disso, experiência própria).

As bailarinas egípcias fazem um arabesque menor, com a perna de trás flexionada, que eu aprendi como "arabesque oriental". Ele oferece uma dificuldade menor do que o outro, e na minha opinião pessoal, não fica tão bonito.



Pra quem curte um pianinho (eu amo!!!) recomendo ouvir o mais famoso dos arabesques da música erudita para piano, o Arabesque n. 1 de Debussy, compositor francês do impressionismo. Essa música me faz imaginar muitas coisas, às vezes uma tela sendo pintada, com as cores sendo misturadas aos poucos, com tons claros e escuros e variando entre pinceladas leves, lentas, pesadas ou pequenos toques do pincel; outras vezes uma dança, com belos movimentos de braços, mãos e claro, arabesques, trazendo a mesma sensação do passo da dança, a leveza, o "voar"...

http://www.hotshare.net/audio/108946-73993152dd.html

* pra ouvir a música, copiem o link no navegador e cliquem na opção "baixar esse áudio", alguma coisa assim, porque por alguma razão que eu desconheço, ele não toca no site. Se mesmo assim não der certo me mandem um e-mail, naznindoventre@gmail.com que eu envio a música. Ela é muito linda, vale a pena!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Disciplina

"Deus dá o talento, mas é o trabalho que transforma o talento em gênio."
Anna Pavlova

"Talento é 1% inspiração e 99% transpiração”.
Einstein

Hoje eu estava pensando, como é bom estar de férias e poder praticar dança por várias horas diariamente.
Dança não é minha profissão, sou estudante de dança do ventre, mas sou professora de inglês e tradutora profissionalmente. Mas a questão é, será que eu daria conta? Será que eu seria capaz de ser uma bailarina profissional?
Eu amo dança do ventre, não canso de repetir isso. Estou sempre pesquisando, ouvindo músicas, estudando ritmos e dançando, mas nem de longe tenho a disciplina de uma profissional. Já fiquei sem praticar por uma semana, já faltei na aula porque não tinha estudado, e já optei por ficar jogada no sofá em vez de colocar as sapatilhas e ir dançar, confesso!!!, e não foi só uma vez não. Essa não é bem a postura de uma profissional (tenho a desculpa esfarrapada na ponta da lingua: sou amadora, sou amadora!!).
Nestes últimos 3 dias ensaiei mais ou menos umas 3 horas cada dia. Pra começar, estou beeeem dolorida, embora eu faça alongamento antes e depois do ensaio e não seja sedentária. Mas acho que isso deve ser normal. Bailarinas profissionais, não só de dança do ventre mas de outras danças ensaiam várias horas TODOS OS DIAS, chegando até a 6, 7 horas de ensaio. É um trabalho árduo, difícil e com muitos calos, dores e suor no caminho. O resultado é maravilhoso, nada como ver uma profissional no palco, mostrando em 5, 10 minutos o trabalho de uma vida inteira. Mas chegar a esses minutos EXIGE o trabalho anterior, as repetições, as frustrações e toda a parte chata que as "bailarinas de fim de semana" podem se dar ao luxo de pular (podem mesmo???). Eu digo por experiência própria, não estou julgando, estou falando por mim. Eu me apresento sim, mas como sou aluna, o erro é perdoável, "tadinha, tá aprendendo", agora vê se o público perdoa erro de profissionais. De jeito nenhum, caem matando!
Eu não tenho intenção de me profissionalizar, pelo menos não por enquanto, não por causa do trabalho que é necessário, mas porque estou feliz com minha profissão. Não sei se será assim pra sempre, mas no momento sim. Mas enquanto estou de férias vou tentar ter a disciplina de uma profissional, só pra ter o gostinho, rsrs...e quem sabe depois não consigo incorporar mais disciplina na minha rotina. Tudo bem, não sou profissional, mas gostaria de ter a disciplina de uma, e não só gostaria, vou tentar! Ah, e quanto às dores, vou abstrair...é como dizem: no pain, no gain!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Coreografar

Oi gente, um feliz ano novo para todo mundo, com muita alegria, saúde e dança, óbvio!

Bom, hoje gostaria de falar um pouco sobre coreografia, coreografar na verdade.
No sábado eu comecei minha "lição de férias", que consiste em preparar uma coreografia simples que poderia ser apresentada para um público leigo em dança do ventre.
Escolhi uma música pop árabe de 4 minutos. Planejei entrar com o véu, incluir movimentos simples e algo diferente, com a minha marca na coreografia. Estou simplificando bem, claro que tudo foi sendo pensado aos poucos, mas não vou me estender aqui.
Eu já montei algumas coreografias antes, mas dessa vez, fiquei 3 horas ensaiando, fazendo mil anotações, ouvindo a música uma vez atrás da outra, e depois dessas horas, sai praticamente sem nada pronto! E isso me levou a pensar...por que o processo está ficando tão complexo? Não deveria ser o contrário? Quanto mais experiência e maior o repertório de passos, coreografar não deveria ser mais rápido?
Depois do ensaio, fui para a internet e fiz algumas pesquisas sobre coreografias. Nem preciso dizer que sobre o assunto ligado à dança do ventre achei pouquíssimas coisas. Acabei encontrando mais em dança de salão, especialmente. Encontrei alguns roteiros, dicas para montar uma coreografia, etc.
No domingo, sentei a bunda na cadeira e continuei um trabalho mais teórico. Comecei a ouvir a música e pensar nos passos dentro do tempo dela, não em contagem de 4, ou de 8, mas marcando o que eu poderia fazer quando a música está em 30 segundos, por exemplo, depois quando ela muda nos 40, e assim em diante.
Claro que mesmo a música sendo simples (tem um ritmo constante, sem ser nenhum dos ritmos árabes, só com um said em 2 ou 3 momentos) e tendo muitas partes que se repetem, pensei em contar uma historinha, e assim fui montando minha coreografia. Consegui coreografar 3 minutos dos 4.
Hoje vou colocar na prática tudo que eu escrevi ontem. Vou ver se o corpo aceita bem a historinha que eu criei para essa música, senão, sentar novamente e escrever outra história.
Não sei se existe um roteiro para coreografia na dança do ventre. Acho que é muito pessoal, algumas bailarinas devem ir mais pela música, outras mais pelos tempos, e por aí vai. Claro que também conta muito a experiência de cada uma. Mas eu tive a impressão com essa coreografia de que quanto mais se sabe, mais difícil fica, mesmo com uma música aparentemente simples. Mas, pelo menos pra mim, o desafio maior é cada vez mais prazeroso. Coreografar, por mais trabalhoso que seja, é maravilhoso!