segunda-feira, 13 de abril de 2009

Tudo bem que é dança, mas é dança do ventre?


Eu tinha uma idéia sobre o que escrever neste post, tinha feito um rascunho, mas, conforme fui escrevendo e pensando sobre ele durante alguns dias, acabei com mais perguntas do que respostas. Pra reflexão – minha mesma e de outros a que possa interessar – coloco minhas dúvidas antes do post que tinha preparado.


1 – O que exatamente é a dança moderna – chamada assim dentro da dança do ventre?

2 – Sob a tal denominação de "dança moderna", pode-se dançar da forma que quiser e usar o instrumento que quiser?

3 – É possível estabelecer limites na dança do ventre?

Minhas perguntas podem parecer confusas, mas acredito que isso reflita o quanto eu estou confusa em relação às apresentações de dança do ventre. Ora gosto, ora me incomodo; ora quero 'inventar' também, ora quero dançar 'o tradicional'.


Acho que o ponto em comum desse assunto é, a diferença entre uma apresentação de dança do ventre e uma performance, um show, chamado de 'dança do ventre', mas com muito espetáculo e poucos elementos da dança.

Uma das primeiras vezes em que pensei sobre isso foi em uma grande apresentação que assisti com diversas 'estrelas' nacionais e internacionais. Gostei muito de diversas apresentações, e depois eu e minhas amigas conversamos sobre elas. E a conversa foi mais ou menos assim:


- Você gostou da fulana?

- Gostei. Como dança do ventre não tinha muita coisa, mas ela tem muita presença de palco, é uma verdadeira 'show woman'.

- Eu gostei mais da ciclana, porque ela foi uma das poucas que apresentou dança do ventre mesmo.

- Aquela que dançou o 'tango árabe' foi muito bem, mas a outra que dançou 'flamenco árabe' deixou um pouco a desejar...


Claro que a conversa não foi exatamente assim, só estou tentando ilustrar essa confusão. Eu nunca gostei muito de rótulos e me considero bastante liberal em relação a inovações. Acho que vale, e que tudo isso que citei pode ser considerado dança, mas afinal, é dança DO VENTRE? Às vezes me vejo em cima do muro, sem conseguir ter uma opinião mais definida sobre isso. Talvez isso venha com a experiência...


Essa questão tem me 'pegado' ultimamente, porque tenho a impressão de que tudo pode na dança do ventre. No ballet, flamenco, dança de rua e outras, os limites parecem estar mais definidos; se uma pessoa leiga assisti, sabe reconhecer. Agora na dança do ventre, acho que se eu que estou aprendendo e buscando entender cada vez mais já fico nessa dúvida, imagina uma pessoa que não entende do assunto. A dança é muito rica, possui influências de muitas partes do mundo, desde sua origem, mas e aí, o céu é o limite? Posso fazer o que quiser e dizer que estou dançando dança do ventre?


Algo também que eu penso bastante à respeito é a necessidade de buscar muitos artifícios para fazer uma apresentação. Na dança do ventre existem muitos instrumentos – espada, bengala, véu etc – mas parece que a cada apresentação é preciso mais. Precisa ter espada, com véu, depois outro véu...é ter um véu, depois snuj, depois um folclore com pandeiro...a dança tem muitos elementos e muitas culturas que ajudaram a torná-la o que ela é hoje, mas usar TUDO numa mesma apresentação? Será que não é muita informação?


É óbvio que todas essas possibilidades são muito atraentes para montar uma apresentação. Eu posso escolher qualquer música, vestir uma roupa não tradicional, usar um, dois, três instrumentos na mesma coreografia! Mas essa sensação vai cansando, porque a cada apresentação parece que precisa de mais e mais, e onde a dança vai parar? Sobra tempo para trabalhar o quadril, um bracinho, expressão? Na minha opinião fica bem difícil. E se a música é curta, fica mais difícil; se a música é longa, fica cansativo pelo excesso (agora estou opinando como espectadora).


O que eu tenho medo é de que nessa busca incessante por inovação, por um diferencial, a dança do ventre deixe de ser DO VENTRE e seja só uma performance, que seja algo para encher os olhos de outros e só.


Eu estava assistindo uns vídeos no youtube, e vi muitas coisas chamadas 'dança do ventre', mas vi muito espetáculo, e pouca dança mesmo. Muitas apresentações parecem mais apropriadas para um circo, por exemplo. E não estou sendo sarcástica, nem maldosa, foi isso que eu pensei mesmo! Shows com um grande trabalho de luzes, piruetas, malabares, até bonitos, mas que lembram muito mais apresentações circenses. Então é só ter algum movimento de quadril que é dança do ventre?


Vale deixar claro mais uma vez que não estou questionando inovações na dança em geral; em termos de espetáculo, existe muita coisa bonita, diferente, que chama bastante a atenção, só não estou certa se deveriam ser chamados de shows ou espetáculos de dança do ventre. E aqueles que são assim chamados, qual o efeito sobre a imagem da dança do ventre para um público leigo? Acho que dança do ventre é uma performance, mas nem toda performance é dança do ventre. Mas e aí, onde estão os limites?


10 comentários:

Giovana disse...

Acho que entendo onde vc quer chegar, Nanzin.

Conheço muito pouco sobre a Dança do Ventre em si, apesar de estar já algum tempo na área. O que sei de diferente, não extravazando muito o meu "mundinho", faz parte do que já vi pelo YouTube, nada mais além. Tbm li pouco a respeito, apesar de ter estudado Anatomia, Fisiologia e tudo o mais ao que se refere ao corpo humano e à saúde como um todo.

Não me considero digna de opinar mais a fundo. Entretanto, baseando-me pelo seu exposto, acredito que faltam reflexões por parte das dançarinas em geral sobre o que é a Dança do Ventre, bem como estabelecer objetivos para si e tbm como profissional.

É uma discussão que vai um pouco além e posso pensar em um futuro post para meu blog qdo estiver mais amadurecida.

Um beijo!

Ket disse...

Mas ela ja deixou de ser 'do ventre' =\
Lembro q ha mt tempo comentei em um post parecido com esse que dançar hj é influenciável. Nenhuma dança é 'pura'. Nem o Ballet é mais assim. Não sou contra fusões e novidades, mas sou extremamente critica qnt a qualidade e o respeito do q esta sendo feito. Adianta dançar só clássicas e dançar quase pelada? É uma epoca em que dançar envolve sentimentos, sociedade, tempo, influências. O tempo não pára, nem a dança. Todas elas.
Tradicionalistas não curtem, mas não há como voltar atrás. Até eu q não sou mt tradicional não curto um monte de bizarrice por aí... Faço o que? Parar não dá... então a gente se concentra em dançar da forma que acha certa. Da forma q se sente bem e quer passar a diante. Talvez seja o unico modo de contrapor tanta coisa ruim q existe no meio.

Luciana Arruda disse...

o nome ajuda né...eu gosto de colocar 'performance' quando sei que to saindo um pouco da dv tradicional... o tradicional? pra´mim é o bom e velho clássico, trajes esvoaçantes, quadris, braços, mãos...simples, menos é mais. mas realmente o povo tá perdendo a noção já...depende do evento, cadacaso é um caso. acho que qdo a proposta fica clara, tudo vale. desde que fique bonito e elegante.
beijinho

Natalia disse...

Oi Naznin ^^
Acho que estamos beeeeem longe da Dança do Ventre, como era, láaaaa no comecinho, no Oriente, em suas origens. Duvido que lá se fizesse "meia ponta" ou se "batesse cabeça" ao girar... Mas eu não sou contra as inovações não. Pelo contrário. Essa "limpeza" que damos na nossa dança, a deixa mais bonita. E o objetivo da dança não é a beleza?
Também páro pra pensar nessa "corrupção" que a dança do ventre tem sofrido. Mas, muito bem citado: como vamos saber, de fato, o que é Dança do Ventre de verdade?
Podíamos instituir um código meninas, uma apostila universal da DV... E putz, pensa como isso daria briga?

Ótimo post, mil beijos ♥

Gamila disse...

Olá Naznin!
Adorei seu post!
Eu poderia comentar com muitas palavras, mas prefiro dizer apenas: continue assim! É o melhor a fazer. Questionar, refletir, pensar e falar, depois falar o contrário.
Desse modo você vai fazer a diferença no mundo da dança do ventre. E dou graças às deusas por existirem pessoas como você para lançar tantas questões sobre um tema tão cheio de controvérsias!
Beijos!

Giovana disse...

Oi, Nanzin!

Pois é... No post eu quis abordar mais a questão do conforto e da proteção e até um pouco da estética. Principalmente pq no início eu não ligava mto pra estética e de certa forma, com o tempo, comecei a sentir necessidade de parecer mais bonita nas aulas. E qto à proteção, eu realmente fiquei com a dorzinha chata o dia todo nas costas por causa da friagem, rsrs.

Achei que poderia aprofundar um pouco mais no assunto.

Beijo, obrigada pelo comentário :-)

Marcia Dib disse...

Naznin

Sua inquietação é minha também...
Sinto que está se buscando algo "fora", sempre mais, mais!
As formas são diferentes, mas, e o conteúdo? Onde está o recheio?

As apresentações estão se apoiando cada vez mais em grandes espetáculos, onde tudo aparece: a luz, a roupa, os acessórios; mas onde está a bailarina? Será que ela está se escondendo atrás disso tudo? Será que ela está se valendo de tantas coisas para compensar a falta de trabalho corporal, as dificuldades técnicas, ou mais comum, o fato de não ter a dança DENTRO de si?

Será que não já temos muuuuito o que aprender com nosso corpo, com o gestual oriental (que propõe energia e tônus diferentes das formas já utilizados na dança ocidental), com o sentimento que determinada música traz à tona? Será que a platéia precisa de tantos estímulos para prestar atenção?

Talvez a insegurança em relação a estas questões esteja levando muitas bailarinas a se esconderem ou se apoiarem em tantos outros elementos...

Bom, são muitos "será?", mas fica aqui minha opinião.
Beijo,
Marcia

Naznin disse...

Oi gente!!!

Bem colocado pela Marcia, 'são muitos "será?"'...é um assunto bem complicado, e eu estou tentando entender até agora. Mas acho que o ideal é buscar fazer de cada apresentação algo autêntico, sem exageros.

Ultimamente tenho apreciado cada vez mais as danças folclóricas, estudando um pouco das origens e tentando trazer isso para nossa realidade, para nosso presente. Encontrar o meio termo está complicado, mas a busca é o que vale.

Concordo com a Luciana quando ela diz que chama de 'performance' algo que é diferente. Acho que essa simples atitude pode contribuir para acabar com a confusão. Tudo bem que todo mundo que dança e gosta de mexer o corpo e descobrir suas possibilidades quer arriscar, quer tentar o novo, e não ficar limitado a uma modalidade de dança, mas não há nada de errado em assumir que está fazendo isso; vamos pensar no público, deixar claro o que está sendo feito, especialmente para quem não consegue entender a distinção (pelo menos no sentido técnico da coisa).

Muito obrigada pela opinião de todas. Acho que o caminho é esse mesmo, questionar, pesquisar e assumir as próprias opiniões, sempre com respeito à dança!

Marcia e Gamila, sejam bem-vindas ao blog! Espero ve-las sempre por aqui!

bjão a todas

rhazi disse...

Então Naznim... segundo o Regulamento do Mercado Persa, sobre a Categoria Grupo Moderno:

"Categoria Grupo Moderno: para danças orientais árabes modernas incluindo fusões (com exceção de tribal que possui categoria própria)

Performances realizadas com Véus, Snujs, Espadas, Punhais, Candelabros e Taças podem ser inscritas na categoria clássica, moderna ou folclórica uma vez que tais elementos podem se adequar a todos estes estilos. O fator determinante não é o uso do elemento e sim o tipo de dança em que se desenvolve.
Exemplo: O véu é um dos símbolos da dança clássica oriental mas também é utilizado em composições de danças beduínas, no melea laf, assim como em algumas danças modernas e etc... A espada e o Punhal por sua vez também podem se desenvolver dentro do estilo clássico, moderno ou folclórico; tudo depende do contexto em que se baseia a apresentação. Logicamente o ritmo e músicas selecionadas, passos ,movimentos, trajes e interpretação devem ser adequados a categoria escolhida.

Importante: Antes de se inscrever em um das categorias pesquise se o ritmo e música escolhidas estão de acordo assim como o traje adequado, os movimentos técnicos da dança, o desenvolvimento da expressão corporal e etc"

Não sei se isso ajuda ou confunde...

Naznin disse...

Noooossa Rhazi, acho que confundiu mais, rsrs...mas valeu por colocar aqui, é mais um material para ajudar na reflexão.

bjão