Eu tinha uma idéia sobre o que escrever neste post, tinha feito um rascunho, mas, conforme fui escrevendo e pensando sobre ele durante alguns dias, acabei com mais perguntas do que respostas. Pra reflexão – minha mesma e de outros a que possa interessar – coloco minhas dúvidas antes do post que tinha preparado.
1 – O que exatamente é a dança moderna – chamada assim dentro da dança do ventre?
2 – Sob a tal denominação de "dança moderna", pode-se dançar da forma que quiser e usar o instrumento que quiser?
3 – É possível estabelecer limites na dança do ventre?
Minhas perguntas podem parecer confusas, mas acredito que isso reflita o quanto eu estou confusa em relação às apresentações de dança do ventre. Ora gosto, ora me incomodo; ora quero 'inventar' também, ora quero dançar 'o tradicional'.
Acho que o ponto em comum desse assunto é, a diferença entre uma apresentação de dança do ventre e uma performance, um show, chamado de 'dança do ventre', mas com muito espetáculo e poucos elementos da dança.
Uma das primeiras vezes em que pensei sobre isso foi em uma grande apresentação que assisti com diversas 'estrelas' nacionais e internacionais. Gostei muito de diversas apresentações, e depois eu e minhas amigas conversamos sobre elas. E a conversa foi mais ou menos assim:
- Você gostou da fulana?
- Gostei. Como dança do ventre não tinha muita coisa, mas ela tem muita presença de palco, é uma verdadeira 'show woman'.
- Eu gostei mais da ciclana, porque ela foi uma das poucas que apresentou dança do ventre mesmo.
- Aquela que dançou o 'tango árabe' foi muito bem, mas a outra que dançou 'flamenco árabe' deixou um pouco a desejar...
Claro que a conversa não foi exatamente assim, só estou tentando ilustrar essa confusão. Eu nunca gostei muito de rótulos e me considero bastante liberal em relação a inovações. Acho que vale, e que tudo isso que citei pode ser considerado dança, mas afinal, é dança DO VENTRE? Às vezes me vejo em cima do muro, sem conseguir ter uma opinião mais definida sobre isso. Talvez isso venha com a experiência...
Essa questão tem me 'pegado' ultimamente, porque tenho a impressão de que tudo pode na dança do ventre. No ballet, flamenco, dança de rua e outras, os limites parecem estar mais definidos; se uma pessoa leiga assisti, sabe reconhecer. Agora na dança do ventre, acho que se eu que estou aprendendo e buscando entender cada vez mais já fico nessa dúvida, imagina uma pessoa que não entende do assunto. A dança é muito rica, possui influências de muitas partes do mundo, desde sua origem, mas e aí, o céu é o limite? Posso fazer o que quiser e dizer que estou dançando dança do ventre?
Algo também que eu penso bastante à respeito é a necessidade de buscar muitos artifícios para fazer uma apresentação. Na dança do ventre existem muitos instrumentos – espada, bengala, véu etc – mas parece que a cada apresentação é preciso mais. Precisa ter espada, com véu, depois outro véu...é ter um véu, depois snuj, depois um folclore com pandeiro...a dança tem muitos elementos e muitas culturas que ajudaram a torná-la o que ela é hoje, mas usar TUDO numa mesma apresentação? Será que não é muita informação?
É óbvio que todas essas possibilidades são muito atraentes para montar uma apresentação. Eu posso escolher qualquer música, vestir uma roupa não tradicional, usar um, dois, três instrumentos na mesma coreografia! Mas essa sensação vai cansando, porque a cada apresentação parece que precisa de mais e mais, e onde a dança vai parar? Sobra tempo para trabalhar o quadril, um bracinho, expressão? Na minha opinião fica bem difícil. E se a música é curta, fica mais difícil; se a música é longa, fica cansativo pelo excesso (agora estou opinando como espectadora).
O que eu tenho medo é de que nessa busca incessante por inovação, por um diferencial, a dança do ventre deixe de ser DO VENTRE e seja só uma performance, que seja algo para encher os olhos de outros e só.
Eu estava assistindo uns vídeos no youtube, e vi muitas coisas chamadas 'dança do ventre', mas vi muito espetáculo, e pouca dança mesmo. Muitas apresentações parecem mais apropriadas para um circo, por exemplo. E não estou sendo sarcástica, nem maldosa, foi isso que eu pensei mesmo! Shows com um grande trabalho de luzes, piruetas, malabares, até bonitos, mas que lembram muito mais apresentações circenses. Então é só ter algum movimento de quadril que é dança do ventre?
Vale deixar claro mais uma vez que não estou questionando inovações na dança em geral; em termos de espetáculo, existe muita coisa bonita, diferente, que chama bastante a atenção, só não estou certa se deveriam ser chamados de shows ou espetáculos de dança do ventre. E aqueles que são assim chamados, qual o efeito sobre a imagem da dança do ventre para um público leigo? Acho que dança do ventre é uma performance, mas nem toda performance é dança do ventre. Mas e aí, onde estão os limites?

